Como é bom ir a um cinema comercial convencional (tipo esses de shopping) e assistir a um ótimo filme brasileiro. Foi assim que “Olhos Azuis”, de José Joffily (diretor que eu já muito admirava pelo excelente
Dois Perdidos Numa Noite Suja), nos surpreendeu na noite de ontem. Fomos assistir "Olhos Azuis" naquele estilo “pega o jornal e vê o que está passando”. Quase sempre, nessas situações, poucos filmes costumam nos atrair. Mas um filme brasileiro que se referia à emigração de latino-americanos para os EUA nos chamou a atenção.
Eu próprio não ouvira falar do filme, e, por sorte, não havia assistido a publicidade que estava passando na TV. A chamada publicitária o deturpou em demasia ao tentar fazê-lo ficar mais atraente para o grande público. Se eu tivesse visto o comercial da TV provavelmente não iria assisti-lo no cinema. A peça publicitária reduziu-o a mais um drama/aventura policial hollywoodiano tipo B, desses que infestam os cinemas brasileiros a cada semana. “Olhos Azuis”, contudo, é bem mais do que isso.
Não vou aqui fazer nenhuma resenha do filme. Quem quiser pode ver a oficial clicando
aqui. Me interessa mencionar apenas o profissionalismo da produção.
Do roteiro à pós-produção, tudo ficou impecável. Algo ainda raro para a maioria dos filmes nacionais, que costumam derrapar muito no quesito roteiro e edição, mesmo quando tudo o mais consegue ficar em bom nível técnico e artístico – o que também não é tão comum assim.
(Me desculpem, mas aqui cabe uma observação: para quem não está entendendo porque estou sendo tão “crítico” com o cinema nacional, vale a pena dar uma olhada neste meu pequeno artigo: "
Reflexões sobre o ato de fazer cinema". Infelizmente penso que o cinema brasileiro ainda carece de muito profissionalismo – não concordo plenamente, portanto, nem com o discurso da falta de dinheiro nem com o discurso da falta de público.)
De qualquer modo, é um alívio ver uma produção brasileira em alto nível técnico, fazendo filme para o grande público (relativamente dentro dos padrões americanos de ação, suspense e dramaticidade) e sem cair para a “trasheira” por incapacidade técnica ou para a chatice das comédias românticas ou dos pastelões. No Brasil já é possível fazer filmes
pops que ao mesmo tempo sejam sérios e relativamente densos. Já é possível deixar de oscilar entre a pretensão de “arte pura” (sem público) e os clichês de televisão (sem qualidade artística, mas com razoável público).
Nesse sentido, é até justificável a tentativa das produtoras envolvidas com o “Olhos Azuis” de ampliar seu público divulgando-o na TV como se fosse um filme policial americano qualquer. Corre-se o risco de muita gente se sentir enganada, e de algumas outras pessoas não irem ao cinema justamente por conta desta maquiagem hollywoodiana; mas, de qualquer maneira, um filme para conseguir alto nível técnico e um bom público tem que ser necessariamente tratado também como um mero produto comercial.
Só uma última informação – a fim de corrigir um pouco as distorções que a publicidade e as sinopses de jornais estão fazendo com o filme, caso alguém vá vê-lo a partir desta resenha. A temática do filme gira em torno da relação do senso comum norte-americano – sobre o motivo e o direito dos latino-americanos migrarem em massa e clandestinamente para os EUA – e o contato dos gringos que vêm para o nordeste brasileiro atrás de putas e/ou de se “reconciliar consigo mesmo”. É claro que por aí se desenvolve uma história de ação, drama e suspense. Mas o background cultural jamais sai de cena. E é isto que deixa “Olhos Azuis” bem distante da grande maioria dos filmes policiais americanos.
Também vale à pena ver as fotos do
making of clicando
aqui; lembrando, contudo, que as primeiras fotos parecem ser apenas de visitas às locações originais do filme no Brasil, e não propriamente de
making of, muito menos
still.
Tem também boas entrevistas com o diretor no
blog do filme.